segunda-feira, 24 de junho de 2019

A dor do amadurecimento


Eu tinha 18 anos quando tudo aconteceu, mas a gente já se conhecia há alguns anos antes. Nos conhecemos em uma festa onde eu estava com algumas amigas e depois dali, ainda ficamos de rolo por mais de um ano. Ele não se mostrava a pessoa que era quando estávamos juntos. Sempre foi fofo, carinhoso e me tratava super bem. Meu nome é Jéssica*. Fiquei 1 ano ao lado do Carlos e foi o suficiente para conhecer o inferno.

Com 1 mês de relacionamento, ele tinha uma obsessão por meus relacionamentos passados. Queria saber detalhes, como eram as coisas e principalmente o porquê do término. O problema é que eu não podia fazer as mesmas perguntas pois ele desconversava. Quando nossas brigas começaram, ele usava as minhas histórias contra mim e dizia “por isso que fulano te largou, agora eu consigo entender o lado dele” e me xingava de puta para baixo, mesmo não tendo feito nada demais. Aquelas palavras acabavam comigo e eu não conseguia rebater. Eu chorava na frente dele, me questionava sobre o que eu teria feito de errado, mas ainda sim pedia desculpas, porque o Carlos não estaria fazendo aquilo comigo à toa.

 Naquele ano eu tinha acabado de começar um curso e era a realização de um sonho. Quando comecei a conhecer pessoas, a ir em festas, ele começou a se incomodar. Excluía os homens do meu Facebook e me proibia de ter Whatsapp. Carlos só ‘permitiu’ que eu usasse o Facebook por conta dos trabalhos de grupo do curso. Isso porque eu bati o pé e disse que era necessidade. Aos poucos foi me afastando de amigos e, principalmente, familiares.

Ele me puxou pelos braços na frente dos meus familiares, o que causou um grande mal-estar na família. Não aceitaram mais o meu relacionamento, mas, como eu não queria enxergar o que estava acontecendo, eu insisti naquilo que estava na cara que não daria certo. Desde então, por muitas vezes cheguei com hematomas diferentes em casa, tanto nos braços quanto nas pernas. Minha mãe via e pedia pelo amor de Deus para que eu o largasse porque ela estava prevendo uma tragédia. Eu sempre dizia que não era o Carlos. Que eu batia no ônibus, na parede, na quina da cama, enfim, mas nunca ele.
Um dia fomos a uma festa próximo a nossa casa. Carlos deu em cima de uma menina na minha frente. Aquilo me deixou extremamente irritada e pedi para ir embora. Como ele já estava um pouco alterado, já saímos da festa com ele reclamando muito. Quando chegamos na casa dele, entrei para o quarto, troquei de roupa, deitei e ele ficou sentado no computador. Ele queria sair de novo, mas eu falei que ele não iria porque já estava tarde e ele estava bêbado. Ele começou a se alterar comigo. Como eu já estava ficando com medo dele, eu tranquei a porta do quarto e ele começou a bater muito forte. Eu abri com medo do Carlos derrubar. Ele entrou no quarto e deitou. Eu levantei e fui a cozinha porque estava com fome. Esquentei e coloquei a minha comida e sentei na mesa do computador para jantar, fiquei de costas para a porta do quarto. Eu só escutei um estrondo muito forte e me assustei. Ele levantou da cama, bateu na porta, pegou um cabo de vassoura e tacou nas minhas pernas. Senti uma dor insuportável, mas ainda estava um pouco anestesiada por conta do susto. Carlos me pegou pelo cabelo e queria me colocar para fora de casa às 02:30 da manhã. Eu gritava, pedia para ele parar e mesmo assim, Carlos continuou a me arrastar em direção a porta. Ele segurou o meu rosto com muita força para que eu parasse de gritar e, como eu uso aparelho ortodôntico, minha boca rasgou por inteiro. Ele só parou quando a vizinha gritou dizendo que ia chamar a polícia e também me viu cuspir sangue. A tia dele foi até a porta da casa dele e ordenou para que ele parasse de me bater. Mas foi isso. Ela não entrou, não me defendeu, não me acolheu. Se eu tivesse que morrer ali, já estaria morta. Carlos já tinha jogado minhas roupas e maquiagens longe. Peguei meu celular e estava arrumando minhas coisas e ligando para a minha mãe ao mesmo tempo para que ela fosse me buscar. Ele arrancou o telefone da minha mão e começou a chorar e dizia que a culpa daquilo tudo ter acontecido era minha e me implorou para que eu não fosse embora. Ele chorava feito criança, disse que aquilo não iria se repetir e eu, boba, acreditei. Ele chorou a noite inteira e dormiu abraçado comigo, sendo consolado por mim, a agredida. No dia seguinte, acordei com o café na cama. Mesmo ainda muito assustada, acabei caindo na conversa dele mais uma vez.

Não demorou para que toda a agressão verbal voltasse. Ele queria que eu largasse meu emprego, curso e minha família e fosse morar com ele. Eu fui irredutível. Falei não diversas vezes e isso despertava a ira de Carlos. Ele ‘apoiava’ tudo o que eu fazia, mas não aceitava que eu buscasse minha independência. Queria que eu fosse totalmente dependente dele em tudo. Isso passou a me incomodar. Aconteceram coisas terríveis na minha vida e eu passei a ligar os pontos até finalmente perceber que eu estava em um relacionamento abusivo.

Sentei com o Carlos, disse que não dava mais para continuar e coloquei todos os meus pontos. Eu já não estava feliz há muito tempo e precisava me libertar daquilo. Ele chorou, disse que iria mudar, que tudo aquilo eu ele me proibia de fazer era porque “ele não entendia a importância que tinha na minha vida” e que, a partir daquele momento, tudo seria diferente. Eu fui para a minha casa e finalmente eu estava livre para fazer o que eu quisesse.

No dia seguinte, ele me procurou. Disse que queria me encontrar mas para conversarmos como amigos. Eu aceitei, mas alguma coisa me dizia para eu não ir sozinha. À noite, ele Carlos me buscou na minha casa e éramos quatro pessoas. Fomos a um barzinho mas choveu tanto que acabamos indo para a casa de um irmão dele. Ficamos na varanda conversando. Apesar de eu estar numa boa no ambiente, ele estava com cara abatida e todo tempo ameaçava chorar e colocava músicas românticas. Como meu celular estava tocando a música, eu deixei ele na mesa, pois minha amiga estava perto, e fui o banheiro. Eu ouvi que a música tinha parado de tocar e isso me incomodou um pouco, mas não queria acreditar eu ele tivesse feito tal coisa. Quando voltei, Carlos estava sozinho, com o meu celular na mão e bufando de raiva. Ele tinha vista uma conversa minha com meu ex-namorado, deduziu que eu estava o traindo e que foi por isso que eu o deixei. Apesar e não dever satisfação nenhuma da minha vida pois já não tínhamos mais nada, eu disse que não o traí e que conversamos depois que eu já tinha terminado com ele. Carlos insistiu nessa história, disse que estava com nojo da minha cara, mas ainda sim queria que eu ficasse no mesmo ambiente que ele. Eu peguei meu celular e disse que ia chamar minha amiga e iria embora. Ele cuspiu na minha cara e começou a me xingar de muitas coisas. Eu o empurrei para conseguir me desvencilhar do ataque de cuspes e comecei a gritar pelo nome da minha amiga. Ele pegou uma garrafa de cerveja para jogar o liquido em mim, mas a garrafa estava vazia, então ele tentou jogar a garrafa, mas o irmão dele chegou na hora. Minha amiga entrou na frente e começou a empurrá-lo e eu, já muito assustada, saí correndo pelo canto e ele continuou a gritar por mim, insistindo em uma traição que não existiu e me xingando de muitas coisas. Voltei para a minha casa e decidi que viveria uma vida nova.

Carlos hackeou minhas redes sociais por três vezes mas consegui recuperar. Todos os amigos dele, quando me viam na rua, me viravam o rosto porque só ouviram o lado dele, mas nenhum deles sabem da terça parte do que vivi de fato. Saí como a errada, mas retomei tudo o que eu tinha perdido mais uma vez. Minha família, meus amigos, o foco nos meus estudos e a realização do sonho de fazer meu curso. Hoje sou uma nova mulher. Apesar de ainda sentir medo quando encontro Carlos na rua, tenho certeza de que tudo mudou para mim e que nunca mais vou deixar isso se repetir e lutar todos os dias para que o que aconteceu comigo não aconteça com outras mulheres.

*Nomes e detalhes da história foram alterados para proteção da identidade da vítima.

sexta-feira, 31 de maio de 2019

Recomeçar é preciso


Tudo começou quando casei pela primeira vez com 19 anos. Meu marido, que tinha 38 anos, sempre me tratou com muito carinho e respeito. Ele nunca me proibiu de fazer nada e dizia que queria que eu conquistasse tudo aquilo que já ele havia conquistado. Eu trabalhava, ganhava muito bem e ele nunca me deixou pagar uma conta sequer dentro de casa. Ele já tinha dois filhos e eu sempre saí para bares e baladas com a filha dele, que era quase da minha idade. Com essa liberdade toda que eu tinha, acabei me iludindo com coisas bobas e conheci uma outra pessoa. Ele conseguiu o contato do meu marido, ligou para ele e contou todo o nosso caso. Foi aí que eu deixei todo o conforto que tinha para viver o que eu chamava de “um grande amor”. Meu nome é Luciana, tenho 45 anos e fui casada por 12 com o João*.
Alugamos uma casa e logo tive que assumir todas as contas. João até trabalhava, mas todo o dinheiro que ganhava, gastava com coisas para ele. Com o passar do tempo, compramos carro, moto e João abriu uma empresa em meu nome. Todas as minhas economias foram investidas nesse negócio.
João era muito ciumento, mas não tinha motivo algum, ainda mais que eu só ia de casa para o trabalho e vice e versa. Com o passar do tempo, ele começou a me agredir verbalmente, tentava gritar comigo, mas eu sempre gritava mais alto e dizia que ia embora. Inclusive, já chegou a quebrar a mão ao dar um soco na parede para não me bater.
Um dia, voltando do trabalho, peguei um baita engarrafamento na Ponte Rio Niterói porque teve protesto na via e colocaram fogo em um ônibus. Não consegui avisá-lo porque meu celular descarregou, mas estava tranquilo porque, por ser um assunto de grande repercussão, passava também na televisão. Quando cheguei no portão de casa, João estava me aguardando de cara feia, batendo perna e de braços cruzados. Ele entrou sem falar nada e eu fui logo atrás. Foi só eu colocar os pés dentro de casa que eu vivi o verdadeiro inferno. Me agrediu de todas as formas. Tapas, socos, me arrastava pelos cabelos e também não me deixava falar nada. Naquela noite não consegui dormir e chorei até a hora de sair novamente para trabalhar. Quando voltei, João se dizia arrependido e chorava me pedindo desculpas e foi assim até o final do nosso relacionamento. Eu fiquei tão machucada que tive que comprar roupas novas para a festa de final de ano da empresa em que trabalhava para ninguém ver os hematomas. Eu cresci vendo minha mãe sendo agredida pelo meu padrasto e jurava que nunca iria me permitir passar por aquilo, mas lá estava eu passando pela mesma coisa.
Eu sempre cuidei da casa, cuidava da filha e da mãe do João e vivia para o trabalho. Eu não tinha família no Rio de Janeiro e me sentia muito sozinha. Ele saía de casa gritando que não me amava mais e nem me queria mais ali. Cheguei a ter um quadro de depressão gravíssimo e já tomei diversos remédios de tarja preta. Só me lembro de acordar com ele gritando comigo, dizendo que se era para me matar, que fizesse longe da casa dele. Comecei um tratamento no psiquiatra e aos poucos fui percebendo o que eu estava deixando João fazer comigo.
Quando finalmente resolvi sair, deixei tudo o que tinha conquistado para trás e saí apenas com a roupa do corpo. Voltei em casa um tempo depois para pegar algumas coisas junto com uma amiga minha. Ele tirou minha amiga do quarto a força e trancou a porta. Ele puxou uma faca e disse que iria me matar. Fiquei tão desesperada que a única reação que tive foi entrar em luta corporal com ele e lutei pela minha vida. Minha amiga conseguiu chamar a polícia a tempo e saí apenas com alguns cortes por conta da faca. Fiz o boletim de ocorrência e consegui a medida protetiva.
Com medo dele, recomecei a minha vida em outro lugar. Excluí e bloqueei João de todas as redes sociais para que ele jamais pudesse me achar. Ele me deixou com uma dívida financeira enorme e hoje, mesmo tendo passado 5 anos, ainda não consegui me recuperar. Sinto falta da vida que eu tinha porque trabalhei muito para obter cada bem que foi deixado para trás. Atualmente tenho um trailer onde vendo lanches e aos poucos estou refazendo minha vida. Consegui ter um relacionamento novamente e posso dizer que essa pessoa me resgatou do caos e estou muito feliz. Hoje eu consigo falar sem ficar magoada e luto todos os dias com uma força interna que já é muito maior que todas as coisas ruins que já passei.  


*Nome do agressor alterado a pedido da vítima

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A luta diária pelo amor próprio


Meu nome é Julia*, tenho 49 anos e posso dizer que sou refém das minhas próprias vontades.
Conheci o Fernando* em 1996, logo após ter separado do pai das minhas duas filhas. Estava voltando para casa, depois de um longo dia de trabalho, e o encontrei no ônibus. Sabe quando você sente que foi amor à primeira vista? Eu era nova, tinha 26 anos, mas achava que ele fosse o homem ideal para mim. Tudo aconteceu muito rápido entre a gente e fomos morar juntos. Sempre foi responsável, bem resolvido financeiramente, nunca deixou faltar nada dentro de casa e, principalmente, respeitava a minhas filhas. O problema é que, mesmo com pouco tempo de casamento, ele já mostrou quem realmente era.
O primeiro réveillon que passaríamos juntos, ele estaria trabalhando. Meu irmão e minha cunhada me convidaram para passar o ano novo junto com eles na casa de um amigo. Na manhã seguinte, quando já havia voltado para casa e ele chegou do trabalho, contei a ele onde fui e com quem tinha ido. Ele ficou furioso no mesmo instante. Me humilhou e eu chorei muito. Mesmo sabendo que tinha feito nada demais, fui pedir desculpas para apaziguar a situação. Fernando me olhou e disse que achava que eu fosse uma mulher de questão.
A partir da primeira agressão verbal, o jeito que ele me tratava só piorava. Me traiu diversa vezes e passou a me agredir fisicamente também. Minhas filhas por diversas vezes presenciaram as agressões. Mesmo tão pequenas, me incentivavam a deixa-lo. Eu não permitia que elas se envolvessem no meu relacionamento por achar que tudo pudesse ser diferente um dia, mas tudo piorou.
Teve um período em caí em profunda depressão por conta de todas as humilhações e agressões que vivi. Fernando usava meu tratamento contra mim. Em uma de nossas discussões, ele dizia: “Vai tomar seus remedinhos, sua louca! ”
Lembro que fomos a uma festa a fantasia de um familiar dele. Eu estava me sentindo linda, como a muito tempo não me sentia. Me diverti muito, dancei bastante e Fernando sentiu-se incomodado. Me chamou para ir embora, mas eu estava me sentindo tão bem que pedi para ficar. Ele virou me virou as costas, saiu da festa e fui atrás dele. Quando chegamos do lado de fora, ele começou a me xingar e me bater. Haviam pessoas próximo do local onde estávamos, mas ninguém veio me ajudar. Fernando me pegou pelo braço e me jogou dentro do carro. Estávamos no caminho de casa, onde ele me chamava de piranha e eu lembrava de como minha noite tinha acabado.
Foram mais de 20 anos de sofrimento. Já apanhei no dia do meu aniversário, por causa de um bolo e já levei uma surra de cinto, onde fiquei com hematomas enormes nas pernas. Mesmo passando por tudo isso, sempre segui perdoando pois o amava e achava que todos os nossos problemas poderiam se resolver um dia.
Um dia, depois de anos de humilhação e sofrimento, Fernando simplesmente arrumou suas coisas e foi embora de casa. Disse que tinha cansado da minha companhia. Hoje, mesmo separados, ele não permite que eu siga a minha vida. Vive me procurando, me ligando. Inclusive também precisei trocara a fechadura da minha casa para que ele não pudesse mais entrar.
Minhas filhas casaram-se e foram embora de casa cedo para não ter que ver tudo o que eu passava, mas sempre estiveram ao meu lado. Atualmente, faço tratamentos com psicólogo e psiquiatra por incentivos delas. Ainda me sinto doente. Sempre me pego chorando e também não consigo dormir.
Meu lema atual é viver um dia de cada vez, porque, mesmo passando por isso tudo, ainda sinto falta dele. É como se eu estivesse viciada em alguma droga. Mas sei que preciso me encontrar novamente como mulher. As vezes penso que um dia ainda vou encontrar alguém que possa me fazer feliz, mas, acima de tudo, preciso entender que eu me basto. Preciso de amor próprio e sei que um dia vou me curar.


*Os nomes dos personagens foram alterados para preservar a identidade da vítima.