sexta-feira, 31 de maio de 2019

Recomeçar é preciso


Tudo começou quando casei pela primeira vez com 19 anos. Meu marido, que tinha 38 anos, sempre me tratou com muito carinho e respeito. Ele nunca me proibiu de fazer nada e dizia que queria que eu conquistasse tudo aquilo que já ele havia conquistado. Eu trabalhava, ganhava muito bem e ele nunca me deixou pagar uma conta sequer dentro de casa. Ele já tinha dois filhos e eu sempre saí para bares e baladas com a filha dele, que era quase da minha idade. Com essa liberdade toda que eu tinha, acabei me iludindo com coisas bobas e conheci uma outra pessoa. Ele conseguiu o contato do meu marido, ligou para ele e contou todo o nosso caso. Foi aí que eu deixei todo o conforto que tinha para viver o que eu chamava de “um grande amor”. Meu nome é Luciana, tenho 45 anos e fui casada por 12 com o João*.
Alugamos uma casa e logo tive que assumir todas as contas. João até trabalhava, mas todo o dinheiro que ganhava, gastava com coisas para ele. Com o passar do tempo, compramos carro, moto e João abriu uma empresa em meu nome. Todas as minhas economias foram investidas nesse negócio.
João era muito ciumento, mas não tinha motivo algum, ainda mais que eu só ia de casa para o trabalho e vice e versa. Com o passar do tempo, ele começou a me agredir verbalmente, tentava gritar comigo, mas eu sempre gritava mais alto e dizia que ia embora. Inclusive, já chegou a quebrar a mão ao dar um soco na parede para não me bater.
Um dia, voltando do trabalho, peguei um baita engarrafamento na Ponte Rio Niterói porque teve protesto na via e colocaram fogo em um ônibus. Não consegui avisá-lo porque meu celular descarregou, mas estava tranquilo porque, por ser um assunto de grande repercussão, passava também na televisão. Quando cheguei no portão de casa, João estava me aguardando de cara feia, batendo perna e de braços cruzados. Ele entrou sem falar nada e eu fui logo atrás. Foi só eu colocar os pés dentro de casa que eu vivi o verdadeiro inferno. Me agrediu de todas as formas. Tapas, socos, me arrastava pelos cabelos e também não me deixava falar nada. Naquela noite não consegui dormir e chorei até a hora de sair novamente para trabalhar. Quando voltei, João se dizia arrependido e chorava me pedindo desculpas e foi assim até o final do nosso relacionamento. Eu fiquei tão machucada que tive que comprar roupas novas para a festa de final de ano da empresa em que trabalhava para ninguém ver os hematomas. Eu cresci vendo minha mãe sendo agredida pelo meu padrasto e jurava que nunca iria me permitir passar por aquilo, mas lá estava eu passando pela mesma coisa.
Eu sempre cuidei da casa, cuidava da filha e da mãe do João e vivia para o trabalho. Eu não tinha família no Rio de Janeiro e me sentia muito sozinha. Ele saía de casa gritando que não me amava mais e nem me queria mais ali. Cheguei a ter um quadro de depressão gravíssimo e já tomei diversos remédios de tarja preta. Só me lembro de acordar com ele gritando comigo, dizendo que se era para me matar, que fizesse longe da casa dele. Comecei um tratamento no psiquiatra e aos poucos fui percebendo o que eu estava deixando João fazer comigo.
Quando finalmente resolvi sair, deixei tudo o que tinha conquistado para trás e saí apenas com a roupa do corpo. Voltei em casa um tempo depois para pegar algumas coisas junto com uma amiga minha. Ele tirou minha amiga do quarto a força e trancou a porta. Ele puxou uma faca e disse que iria me matar. Fiquei tão desesperada que a única reação que tive foi entrar em luta corporal com ele e lutei pela minha vida. Minha amiga conseguiu chamar a polícia a tempo e saí apenas com alguns cortes por conta da faca. Fiz o boletim de ocorrência e consegui a medida protetiva.
Com medo dele, recomecei a minha vida em outro lugar. Excluí e bloqueei João de todas as redes sociais para que ele jamais pudesse me achar. Ele me deixou com uma dívida financeira enorme e hoje, mesmo tendo passado 5 anos, ainda não consegui me recuperar. Sinto falta da vida que eu tinha porque trabalhei muito para obter cada bem que foi deixado para trás. Atualmente tenho um trailer onde vendo lanches e aos poucos estou refazendo minha vida. Consegui ter um relacionamento novamente e posso dizer que essa pessoa me resgatou do caos e estou muito feliz. Hoje eu consigo falar sem ficar magoada e luto todos os dias com uma força interna que já é muito maior que todas as coisas ruins que já passei.  


*Nome do agressor alterado a pedido da vítima

quinta-feira, 23 de maio de 2019

A luta diária pelo amor próprio


Meu nome é Julia*, tenho 49 anos e posso dizer que sou refém das minhas próprias vontades.
Conheci o Fernando* em 1996, logo após ter separado do pai das minhas duas filhas. Estava voltando para casa, depois de um longo dia de trabalho, e o encontrei no ônibus. Sabe quando você sente que foi amor à primeira vista? Eu era nova, tinha 26 anos, mas achava que ele fosse o homem ideal para mim. Tudo aconteceu muito rápido entre a gente e fomos morar juntos. Sempre foi responsável, bem resolvido financeiramente, nunca deixou faltar nada dentro de casa e, principalmente, respeitava a minhas filhas. O problema é que, mesmo com pouco tempo de casamento, ele já mostrou quem realmente era.
O primeiro réveillon que passaríamos juntos, ele estaria trabalhando. Meu irmão e minha cunhada me convidaram para passar o ano novo junto com eles na casa de um amigo. Na manhã seguinte, quando já havia voltado para casa e ele chegou do trabalho, contei a ele onde fui e com quem tinha ido. Ele ficou furioso no mesmo instante. Me humilhou e eu chorei muito. Mesmo sabendo que tinha feito nada demais, fui pedir desculpas para apaziguar a situação. Fernando me olhou e disse que achava que eu fosse uma mulher de questão.
A partir da primeira agressão verbal, o jeito que ele me tratava só piorava. Me traiu diversa vezes e passou a me agredir fisicamente também. Minhas filhas por diversas vezes presenciaram as agressões. Mesmo tão pequenas, me incentivavam a deixa-lo. Eu não permitia que elas se envolvessem no meu relacionamento por achar que tudo pudesse ser diferente um dia, mas tudo piorou.
Teve um período em caí em profunda depressão por conta de todas as humilhações e agressões que vivi. Fernando usava meu tratamento contra mim. Em uma de nossas discussões, ele dizia: “Vai tomar seus remedinhos, sua louca! ”
Lembro que fomos a uma festa a fantasia de um familiar dele. Eu estava me sentindo linda, como a muito tempo não me sentia. Me diverti muito, dancei bastante e Fernando sentiu-se incomodado. Me chamou para ir embora, mas eu estava me sentindo tão bem que pedi para ficar. Ele virou me virou as costas, saiu da festa e fui atrás dele. Quando chegamos do lado de fora, ele começou a me xingar e me bater. Haviam pessoas próximo do local onde estávamos, mas ninguém veio me ajudar. Fernando me pegou pelo braço e me jogou dentro do carro. Estávamos no caminho de casa, onde ele me chamava de piranha e eu lembrava de como minha noite tinha acabado.
Foram mais de 20 anos de sofrimento. Já apanhei no dia do meu aniversário, por causa de um bolo e já levei uma surra de cinto, onde fiquei com hematomas enormes nas pernas. Mesmo passando por tudo isso, sempre segui perdoando pois o amava e achava que todos os nossos problemas poderiam se resolver um dia.
Um dia, depois de anos de humilhação e sofrimento, Fernando simplesmente arrumou suas coisas e foi embora de casa. Disse que tinha cansado da minha companhia. Hoje, mesmo separados, ele não permite que eu siga a minha vida. Vive me procurando, me ligando. Inclusive também precisei trocara a fechadura da minha casa para que ele não pudesse mais entrar.
Minhas filhas casaram-se e foram embora de casa cedo para não ter que ver tudo o que eu passava, mas sempre estiveram ao meu lado. Atualmente, faço tratamentos com psicólogo e psiquiatra por incentivos delas. Ainda me sinto doente. Sempre me pego chorando e também não consigo dormir.
Meu lema atual é viver um dia de cada vez, porque, mesmo passando por isso tudo, ainda sinto falta dele. É como se eu estivesse viciada em alguma droga. Mas sei que preciso me encontrar novamente como mulher. As vezes penso que um dia ainda vou encontrar alguém que possa me fazer feliz, mas, acima de tudo, preciso entender que eu me basto. Preciso de amor próprio e sei que um dia vou me curar.


*Os nomes dos personagens foram alterados para preservar a identidade da vítima.