quinta-feira, 23 de maio de 2019

A luta diária pelo amor próprio


Meu nome é Julia*, tenho 49 anos e posso dizer que sou refém das minhas próprias vontades.
Conheci o Fernando* em 1996, logo após ter separado do pai das minhas duas filhas. Estava voltando para casa, depois de um longo dia de trabalho, e o encontrei no ônibus. Sabe quando você sente que foi amor à primeira vista? Eu era nova, tinha 26 anos, mas achava que ele fosse o homem ideal para mim. Tudo aconteceu muito rápido entre a gente e fomos morar juntos. Sempre foi responsável, bem resolvido financeiramente, nunca deixou faltar nada dentro de casa e, principalmente, respeitava a minhas filhas. O problema é que, mesmo com pouco tempo de casamento, ele já mostrou quem realmente era.
O primeiro réveillon que passaríamos juntos, ele estaria trabalhando. Meu irmão e minha cunhada me convidaram para passar o ano novo junto com eles na casa de um amigo. Na manhã seguinte, quando já havia voltado para casa e ele chegou do trabalho, contei a ele onde fui e com quem tinha ido. Ele ficou furioso no mesmo instante. Me humilhou e eu chorei muito. Mesmo sabendo que tinha feito nada demais, fui pedir desculpas para apaziguar a situação. Fernando me olhou e disse que achava que eu fosse uma mulher de questão.
A partir da primeira agressão verbal, o jeito que ele me tratava só piorava. Me traiu diversa vezes e passou a me agredir fisicamente também. Minhas filhas por diversas vezes presenciaram as agressões. Mesmo tão pequenas, me incentivavam a deixa-lo. Eu não permitia que elas se envolvessem no meu relacionamento por achar que tudo pudesse ser diferente um dia, mas tudo piorou.
Teve um período em caí em profunda depressão por conta de todas as humilhações e agressões que vivi. Fernando usava meu tratamento contra mim. Em uma de nossas discussões, ele dizia: “Vai tomar seus remedinhos, sua louca! ”
Lembro que fomos a uma festa a fantasia de um familiar dele. Eu estava me sentindo linda, como a muito tempo não me sentia. Me diverti muito, dancei bastante e Fernando sentiu-se incomodado. Me chamou para ir embora, mas eu estava me sentindo tão bem que pedi para ficar. Ele virou me virou as costas, saiu da festa e fui atrás dele. Quando chegamos do lado de fora, ele começou a me xingar e me bater. Haviam pessoas próximo do local onde estávamos, mas ninguém veio me ajudar. Fernando me pegou pelo braço e me jogou dentro do carro. Estávamos no caminho de casa, onde ele me chamava de piranha e eu lembrava de como minha noite tinha acabado.
Foram mais de 20 anos de sofrimento. Já apanhei no dia do meu aniversário, por causa de um bolo e já levei uma surra de cinto, onde fiquei com hematomas enormes nas pernas. Mesmo passando por tudo isso, sempre segui perdoando pois o amava e achava que todos os nossos problemas poderiam se resolver um dia.
Um dia, depois de anos de humilhação e sofrimento, Fernando simplesmente arrumou suas coisas e foi embora de casa. Disse que tinha cansado da minha companhia. Hoje, mesmo separados, ele não permite que eu siga a minha vida. Vive me procurando, me ligando. Inclusive também precisei trocara a fechadura da minha casa para que ele não pudesse mais entrar.
Minhas filhas casaram-se e foram embora de casa cedo para não ter que ver tudo o que eu passava, mas sempre estiveram ao meu lado. Atualmente, faço tratamentos com psicólogo e psiquiatra por incentivos delas. Ainda me sinto doente. Sempre me pego chorando e também não consigo dormir.
Meu lema atual é viver um dia de cada vez, porque, mesmo passando por isso tudo, ainda sinto falta dele. É como se eu estivesse viciada em alguma droga. Mas sei que preciso me encontrar novamente como mulher. As vezes penso que um dia ainda vou encontrar alguém que possa me fazer feliz, mas, acima de tudo, preciso entender que eu me basto. Preciso de amor próprio e sei que um dia vou me curar.


*Os nomes dos personagens foram alterados para preservar a identidade da vítima.     

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