Meu
nome é Julia*, tenho 49 anos e posso dizer que sou refém das minhas próprias
vontades.
Conheci
o Fernando* em 1996, logo após ter separado do pai das minhas duas filhas.
Estava voltando para casa, depois de um longo dia de trabalho, e o encontrei no
ônibus. Sabe quando você sente que foi amor à primeira vista? Eu era nova,
tinha 26 anos, mas achava que ele fosse o homem ideal para mim. Tudo aconteceu
muito rápido entre a gente e fomos morar juntos. Sempre foi responsável, bem
resolvido financeiramente, nunca deixou faltar nada dentro de casa e,
principalmente, respeitava a minhas filhas. O problema é que, mesmo com pouco
tempo de casamento, ele já mostrou quem realmente era.
O
primeiro réveillon que passaríamos juntos, ele estaria trabalhando. Meu irmão e
minha cunhada me convidaram para passar o ano novo junto com eles na casa de um
amigo. Na manhã seguinte, quando já havia voltado para casa e ele chegou do
trabalho, contei a ele onde fui e com quem tinha ido. Ele ficou furioso no
mesmo instante. Me humilhou e eu chorei muito. Mesmo sabendo que tinha feito
nada demais, fui pedir desculpas para apaziguar a situação. Fernando me olhou e
disse que achava que eu fosse uma mulher de questão.
A
partir da primeira agressão verbal, o jeito que ele me tratava só piorava. Me
traiu diversa vezes e passou a me agredir fisicamente também. Minhas filhas por
diversas vezes presenciaram as agressões. Mesmo tão pequenas, me incentivavam a
deixa-lo. Eu não permitia que elas se envolvessem no meu relacionamento por
achar que tudo pudesse ser diferente um dia, mas tudo piorou.
Teve
um período em caí em profunda depressão por conta de todas as humilhações e
agressões que vivi. Fernando usava meu tratamento contra mim. Em uma de nossas
discussões, ele dizia: “Vai tomar seus remedinhos, sua louca! ”
Lembro
que fomos a uma festa a fantasia de um familiar dele. Eu estava me sentindo
linda, como a muito tempo não me sentia. Me diverti muito, dancei bastante e
Fernando sentiu-se incomodado. Me chamou para ir embora, mas eu estava me
sentindo tão bem que pedi para ficar. Ele virou me virou as costas, saiu da
festa e fui atrás dele. Quando chegamos do lado de fora, ele começou a me
xingar e me bater. Haviam pessoas próximo do local onde estávamos, mas ninguém
veio me ajudar. Fernando me pegou pelo braço e me jogou dentro do carro.
Estávamos no caminho de casa, onde ele me chamava de piranha e eu lembrava de
como minha noite tinha acabado.
Foram
mais de 20 anos de sofrimento. Já apanhei no dia do meu aniversário, por causa
de um bolo e já levei uma surra de cinto, onde fiquei com hematomas enormes nas
pernas. Mesmo passando por tudo isso, sempre segui perdoando pois o amava e
achava que todos os nossos problemas poderiam se resolver um dia.
Um
dia, depois de anos de humilhação e sofrimento, Fernando simplesmente arrumou
suas coisas e foi embora de casa. Disse que tinha cansado da minha companhia.
Hoje, mesmo separados, ele não permite que eu siga a minha vida. Vive me
procurando, me ligando. Inclusive também precisei trocara a fechadura da minha
casa para que ele não pudesse mais entrar.
Minhas
filhas casaram-se e foram embora de casa cedo para não ter que ver tudo o que
eu passava, mas sempre estiveram ao meu lado. Atualmente, faço tratamentos com
psicólogo e psiquiatra por incentivos delas. Ainda me sinto doente. Sempre me
pego chorando e também não consigo dormir.
Meu
lema atual é viver um dia de cada vez, porque, mesmo passando por isso tudo, ainda sinto falta dele. É como se eu estivesse viciada em alguma droga. Mas sei que preciso me encontrar novamente como
mulher. As vezes penso que um dia ainda vou encontrar alguém que possa me fazer
feliz, mas, acima de tudo, preciso entender que eu me basto. Preciso de amor
próprio e sei que um dia vou me curar.
*Os
nomes dos personagens foram alterados para preservar a identidade da vítima.
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